quinta-feira, 17 de junho de 2010

O germinal - nº16, Junho de 2010

Algumas lições da greve

Nos últimos dois meses, a UnB viveu um período de greve unificada entre professores, funcionários e estudantes, tendo como pauta central a luta contra o corte salarial de 26% (relativos à URP) dos trabalhadores. É fundamental para a clareza de todos que o corte da URP está inserido em uma estratégia neoliberal do Governo Lula/PT de precarização do trabalho e da universidade pública. Sendo assim, as políticas de corte salarial se articulam com outros projetos, tal como o REUNI, as fundações privadas etc. As provas disso são a retirada da URP em outras universidades públicas do país e o fato de que na UnB os salários dos trabalhadores que entraram depois de 2008 (com o Reuni) são os mais ameaçados desde o começo.

Tal ataque violento aos trabalhadores iniciou um processo de mobilização que, apesar de ter tido uma grande adesão em determinado momento, teve como características políticas durante todo o processo: o corporativismo e o legalismo levado a cabo pelas direções governistas do DCE e Sintfub e a direitista da ADUnB. Essa linha levou o movimento grevista a ficar refém da legalidade burguesa, apostando em atos midiáticos de pressão parlamentar e teve como resultados notórios: o fim da greve dos professores (10/05) sem uma garantia concreta da URP; o fim da greve estudantil (18/05); a aprovação do calendário no CEPE - Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (20/05) e o enfraquecimento da greve dos funcionários.

As ações combativas e a hegemonia governista

O início da greve, no entanto, foi marcado pelo anseio combativo da base estudantil expresso na Assembléia Geral com cerca de 400 estudantes que deflagrou greve, defendendo o “Fim das Fundações Privadas”, “Fora Cursos Pagos”, assim como o método de piquetes (mesmo com o DCE/PT defendendo posição contrária nas assembléias do ano passado). A tentativa de ocupação do CCBB e a ocupação do CONAE também foram marcantes no início da greve. Estava claro, porém, que as direções pelegas não levariam a ação direta até as últimas conseqüências e inclusive a sabotariam. Um exemplo disso foi o trote “solidário” e remunerado (sic) do DCE marcado para o mesmo dia de uma das manifestações unificadas. É importante ressaltar que a combatividade desenvolvida pela base no início da greve não foi capaz de re-configurar uma nova direção ao movimento, o que manteve a hegemonia política da “frente unida” da burocracia governista e thimotysta.

Paulatinamente foi se organizando por parte da burocracia governista, tanto a sindical quanto a estudantil, o boicote da luta e se reconduzindo a greve para o afastamento da combatividade. Dois erros fundamentais dessa política foram: 1º) A defesa de uma suposta “contradição interna” no Governo Federal entre Lula/PT e o Ministério do Planejamento. Esta falsa suposição, uma vez que o Governo agia sob uma política unitária (como ficará claro nas declarações de Lula, citadas a seguir), pretendeu blindar o Governismo e obscurecer seu verdadeiro caráter neoliberal e antipopular*. Com a estratégia de “explorar/disputar” tais “contradições” (sic), as táticas adotadas foram atos midiáticos e pacifistas, ao invés de construir mecanismos efetivos de pressão. E a tática parlamentarista do PSTU foi também de “desgastar” o governo através da mídia; 2º) A defesa legalista da continuidade da luta através da justiça burguesa, tal como expresso na fala do diretor do Sintfub, Mauro Mendes: “a luta agora é no STF” (Fonte: SECOM), conduziu a um recuo ainda maior da ação direta grevista, tendo tal amansamento da greve o objetivo de não prejudicar a tática de ação judicial. Como sempre, tal linha legalista se voltou contra os próprios trabalhadores, imobilizando os grevistas que confiavam na mesma justiça burguesa, pois contribuiu para dividir professores e funcionários quando concedeu liminar favorável a URP somente aos primeiros, ameaçou colocar a greve na ilegalidade etc.

O corporativismo e o legalismo derrotam a greve unificada

Com opção traidora da maior parte dos professores de saírem do movimento unificado, a greve dos estudantes e dos funcionários sofreu um forte impacto negativo. A oposição CCI tinha a clareza que, caso não houvesse uma radicalização, por parte dos setores ainda em greve, a greve estudantil não passaria de uma formalidade, já que os estudantes estavam sofrendo assédio moral por parte dos professores que estavam dando testes, faltas etc. Do mesmo modo, a greve dos servidores ficaria extremamente enfraquecida com o retorno à normalidade das atividades acadêmicas e com o isolamento de uma greve que começou unificada.

No dia 13 de maio foi deliberada em assembléia estudantil a continuidade da greve e a não aprovação do calendário acadêmico no CEPE (Conselho de Ensino Pesquisa e Extensão), já que este prejudicaria as greves, em especial a dos estudantes, e as atividades acadêmicas em geral, tendo em vista o fechamento do R.U, biblioteca, secretarias etc. Os estudantes, após esta assembléia, desceram em manifestação para a reunião do CEPE, onde a maior parte dos estudantes e servidores presentes implodiram o CEPE, com vistas a efetivar a deliberação da assembléia. Tal ação combativa foi acompanhada pelos gritos histéricos do governismo e da direita clamando pela “civilidade”, pela “responsabilidade” e pela “democracia na universidade” (sic). Nós da Oposição CCI afirmamos que não temos compromisso nenhum com a lógica parlamentarista de conciliação de classe, traidora e oportunista da diretoria do DCE e sua base de apoio reacionária e pequeno-burguesa, afirmamos que a democracia burguesa não passa de uma fachada, assim como os apodrecidos conselhos “70-15-15” da burocracia universitária.

A prática é o critério da verdade

É exatamente nesse final de greve que se pode ver mais claramente o caráter conciliador das direções governistas, que caminham articuladas com o Governo Lula/PT levando as greves e suas pautas reivindicativas para a derrota, sendo peça chave para o Governo aplicar a reestruturação produtiva do capitalismo e o ataque aos trabalhadores. Foram exatamente nesses últimos dias da greve que o peleguismo foi mais funesto: O DCE/PT, na assembléia que decretou o fim da greve estudantil, fazendo coro contra as ações combativas dos estudantes com o setor mais podre e reacionário auto-intitulado “Aliança pela Liberdade”, aprovou uma deliberação contra a implosão do CEPE (que se realizaria dia 20/05) e pelo “convencimento” dos conselheiros reacionários, afim de que estes não aprovassem o “calendário”. Tal fato foi denunciado pela Oposição CCI como uma verdadeira traição na luta em defesa da URP. Nesta reunião do CEPE, como havíamos alertado, o calendário acadêmico foi realmente aprovado, inclusive com os votos estudantis favoráveis da “Aliança pela Liberdade” (desrespeitando o posicionamento da assembléia!). Isto demonstrou que o discurso do “diálogo/civilidade” não traz vitórias concretas para os trabalhadores e estudantes. Ao confiar nas vias burocrático-institucionais, a proposta dos estudantes foi completamente atropelada pelos conselheiros reacionários. Mesmo o abaixo-assinado, proposto pelos governistas para "sensibilizar" o conselho, de nada adiantou, e a ameaça da perda salarial dos servidores permanece ainda mais forte.

Reorganizar o Movimento Estudantil e Sindical

Apesar da derrota da greve e da vitória do governismo, o processo de greve, assim como todo processo de luta proletária, deve ser concretamente analisado pelos militantes sinceros. É extraindo as lições corretas das lutas, vitoriosas ou derrotadas, que acumularemos experiência e forjaremos as condições reais para as vitórias futuras! Para tal, concebemos como tarefa estratégica dos estudantes proletários a criação e fortalecimento das oposições estudantis, que não devem ter como objetivo principal “conquistar os aparatos e direções”, mas sim se constituir como embriões do processo de reorganização da luta, da base para cima. A Rede Estudantil Classista e Combativa - RECC se pretende a este objetivo, já articulando a nível nacional tais oposições, assim como defende e busca construir alianças com entidades e oposições sindicais classistas e combativas, se organizando em um Movimento de Oposições Sindical-Popular-Estudantil, para combater o governismo neoliberal e o reformismo, tanto de esquerda como de direita.

Nós da Oposição CCI só temos compromisso com o terreno da luta de classe. É nela que nos encontramos e nos comprometemos a desenvolvê-la até as últimas conseqüências, defendendo os interesses imediatos e históricos da classe proletária. Convocamos todos os estudantes a se juntarem na Oposição Combativa, Classista e Independente ao DCE-UnB!

ABAIXO O GOVERNISMO!
FORA FUNDAÇÕES! FORA BURGUESIA DA UNB!
VIVA O MOVIMENTO ESTUDANTIL-PROLETÁRIO!
NEM ENEM, NEM VESTIBULAR: ACESSO LIVRE JÁ!

* As declarações do Governo Lula/PT no dia 10 de maio de 2010 deixam claro o caráter neoliberal de tal governo quando afirma que deve-se descontar os dias parados dos servidores públicos em greve, não ceder às reivindicações e se possível declarar ilegais as greves, já que “ministro e dirigente ‘não é sindicalista", disse Lula. (Fonte:http://www.gazetadopovo.com.br/vidapublica/conteudo.phtml?tl=1&id=1001528&tit=Lula-pede-que-ministros-endurecam-com-servidores-em-greve)

Um comentário:

Boletus disse...

olá paro todos que escrevem o germinal,eu li os posts e achei muito diferente esta luta do estudante-proletario,vocês? na real? alunos da UnB vocês ja trabalharam na vida?é serio,são poucos os estudantes dali que ja trabalharam,a maioria é filhinho de papai que sai do ensino medio,fica estudando ate passar na unb ja que graças a deus tem um pai que possa bancar um cursinho qualquer ate passar na unb,e pegar uma bolsa com algum professor e ir a luta,eu acho contraditorio e extranho um pessoal que nunca trabalhou ir a luta de quem trabalha e se conhecem alguem que trabalha por ali,ja que cumprir "44h" semanais,estudar,pegar ônibus(tranzito para quem conhece as satélites)e ainda ir para unb?só se pegar uma materia por semestre e ser jubilado daqui uns semestres... enfin consiguiram compreender meu questionamento?